
A Beira Interior poderá tornar-se palco de um dos maiores empreendimentos solares alguma vez propostos em Portugal. A Central Solar Fotovoltaica (CSF) de Sophia, acompanhada por duas Linhas de Muito Alta Tensão (LMAT) a 400 kV, estende-se pelos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova e representa uma transformação territorial sem precedentes na região. O projeto, promovido pela Lightsource BP, prevê injetar até 500 MVA de energia renovável na Subestação do Fundão, enquadrando-se nos objetivos nacionais de descarbonização definidos no PNEC 2030 e no Roteiro para a Neutralidade Carbónica de 2050.
A consulta pública decorreu entre outubro e novembro de 2025 e, segundo o cronograma apresentado, caso o projeto venha a ser aprovado, a construção deverá iniciar-se em 2028, com entrada em operação prevista para 2030. 
Um projeto de escala inédita
O Estudo de Impacte Ambiental (EIA) revela a verdadeira dimensão da intervenção. A área de estudo ultrapassa os 3540 hectares (35,4 km²), dos quais 1734 hectares serão vedados (com rede permeável à fauna de pequeno porte) e cerca de 430 hectares acolherão os módulos fotovoltaicos. Estes painéis, instalados diretamente no solo sem recurso a betão, são organizados em linhas com sistema de seguimento solar Este–Oeste, maximizando as horas de irradiação. A cablagem elétrica será maioritariamente enterrada ao longo dos acessos internos, que não serão asfaltados.
Embora a área impermeabilizada para infraestruturas técnicas seja reduzida (5,39 hectares), a área condicionada durante a construção ascende a 1158 hectares, refletindo o impacto territorial de uma obra desta dimensão. Em exploração, a ocupação fixa será de 434 hectares. A empresa sublinha que o conjunto dos projetos solares licenciados nos três concelhos representa menos de 1% do território total, mas a escala visual e ecológica da transformação permanece um dos pontos centrais do debate público.
Potência e linhas elétricas de muito alta tensão
O projeto assenta num Título de Reserva de Capacidade de 500 MVA, embora os quadros técnicos indiquem que a instalação interna está preparada para valores próximos dos 750 MWac. O parque incluirá 140 postos de transformação e uma subestação própria que fará a ligação à rede nacional, através de dois corredores de LMAT a 400 kV com cerca de 22 quilómetros cada. Junto à Subestação do Fundão, 1,5 quilómetros serão partilhados por apoios duplos.
A construção das LMAT exige uma faixa de servidão de cerca de 45 metros de largura ao longo de todo o percurso, destinada a garantir a segurança. O traçado atravessará áreas agrícolas, florestais e rurais, implicando a criação de acessos e a instalação de estruturas visíveis a longa distância.
Impactes ambientais e patrimoniais
O EIA identifica impactes relevantes sobre biodiversidade, solos, paisagem, património e dinâmicas socioeconómicas. A área de implantação intercepta zonas sensíveis para avifauna, incluindo territórios associados a cegonha-preta, e regista-se a presença potencial de espécies vulneráveis como britango, águia-imperial, zarro e rola-brava. Povoamentos de sobreiro e azinheira, por serem espécies legalmente protegidas, serão alvo de inventariação detalhada, de modo a identificar exemplares afetados e aplicar medidas para reduzir ao mínimo possível o seu abate ou perturbação.
Os solos da região, maioritariamente agrícolas ou agro-silvo-pastoris, suscitam preocupações quanto à perda de atividade produtiva e à fragmentação territorial. Já a paisagem, com reduzida presença industrial, receberá centenas de hectares de painéis e dezenas de quilómetros de linhas aéreas.

O património arqueológico local é sensível: existem vestígios pré-históricos, arte rupestre, estruturas da Idade do Ferro e villae romanas. A proximidade de percursos turísticos como a GR22 (Grande Rota Pedestre) e de aldeias históricas como Idanha-a-Velha, Monsanto e Castelo Novo reforça a preocupação com a integridade do território.
Durante a construção, estima-se um aumento do tráfego de maquinaria pesada, bem como a produção de poeiras, ruído e condicionamentos temporários à circulação.
Benefícios e argumentos do promotor
A empresa destaca o contributo para a produção de energia limpa, a redução de emissões e a importância estratégica na transição energética nacional. Refere também benefícios económicos indiretos durante a construção, sobretudo nos setores de alojamento e restauração. As compensações legais aos municípios incluem 13 500 euros por MVA através do Fundo Ambiental e 1 500 euros por MVA em pagamento direto ou cedência.
Debate público marcado por desconfiança
A contestação ao projeto tem sido significativa. A escala da intervenção, a perda de identidade rural e os impactes visuais persistentes são motivos recorrentes de preocupação de moradores, organizações locais e entidades como a Rede das Aldeias Históricas que argumentam que os impactes recaem quase exclusivamente sobre a região, enquanto os benefícios diretos são limitados.
Neste debate, a comunicação do promotor também tem sido escrutinada. A apresentação pública disponibilizada para a sessão de esclarecimento recorre a imagens renderizadas que sugerem uma integração harmoniosa entre os painéis e a paisagem, suavizando a perceção da escala real do projeto. Embora tecnicamente correta em muitos pontos, a apresentação privilegia vantagens e minimiza impactes, oferecendo uma visão mais persuasiva do que equilibrada e suscitando dúvidas entre os participantes quanto à imparcialidade do material divulgado.
Paralelamente, os três municípios diretamente afetados — Idanha-a-Nova, Fundão e Penamacor — emitiram pareceres formais desfavoráveis ao Projeto Sophia.
Segundo as posições oficiais divulgadas, estas autarquias rejeitaram o projeto por considerarem que ele compromete valores ambientais sensíveis, incluindo áreas de biodiversidade relevante e espécies protegidas; destrói ou inviabiliza centenas de hectares de solos agrícolas, florestais e agro-silvo-pastoris, essenciais à economia local; agrava a fragmentação do território; provoca impactos paisagísticos severos, incompatíveis com percursos turísticos, geossítios classificados e a imagem rural da Beira Interior; e afeta património arqueológico e cultural.
Idanha-a-Nova acrescenta ainda que o projeto colide com compromissos internacionais como UNESCO (Geoparque Mundial, Reserva da Biosfera, Cidade Criativa da Música) e com a sua estratégia de Bio-Região. Os três municípios afirmam apoiar a transição energética, mas defendem que esta deve ocorrer em áreas menos sensíveis, sublinhando que a atual proposta não garante o interesse público nem a salvaguarda do território.
Decisão por anunciar
A consulta pública do projeto, disponível na plataforma Participa.pt, já terminou. O processo encontra-se agora em análise pela Agência Portuguesa do Ambiente, que avaliará os contributos recebidos e decidirá se o projeto poderá avançar tal como está, sofrer alterações profundas ou ser rejeitado. Até lá, permanece em aberto a questão que divide população, especialistas e autoridades: que preço está a Beira Interior disposta a pagar pela transição energética?
Escrito por:
Matilde Santos
Fontes:
https://participa.pt/pt/consulta/a-csf-de-sophia-e-as-lmat-associadas
https://participa.pt/contents/consultationdocument/SophiaPV_LSbp-PT_20251117.pdf
Fundão dá parecer desfavorável à instalação do projecto “Sophia”